Quatro mandatos de deputado estadual, diretor-geral do DER-ES no governo Casagrande, mais de 3 mil posts de obra no Instagram, presença em todos os 78 municípios do Espírito Santo. José Eustáquio de Freitas tem o currículo de obra mais sólido entre os pré-candidatos a deputado federal vindos da base governista. E, aos 59 anos, carrega uma contradição que define sua campanha: construiu uma carreira inteira sendo o “síndico do norte capixaba” — como o próprio Casagrande o batizou em 2013 —, mas quando tentou o salto para a Câmara dos Deputados em 2022, o eleitorado não comprou. Agora tenta de novo. E o que sua presença digital revela é que o problema não é falta de trabalho, é falta de estratégia para transformar trabalho em voto.
Obra sobra, engajamento falta
O Instagram de Freitas é um arquivo público de mandato. São 3.361 publicações acumuladas, sendo 22 Reels só entre junho e julho de 2026. O volume é industrial. O problema é o que acontece depois que o post vai ao ar. Com 22,9 mil seguidores, a taxa de engajamento média dele gira em torno de 1,6% — um número baixo para quem está em pré-campanha a 60 dias da eleição. O pico do período foi o vídeo do contorno de São Mateus, com 961 likes e 132 comentários. O formato que o público mais engaja é máquina na rua, asfalto, antes e depois. Quando ele posta arte de estúdio ou pauta institucional, o engajamento cai para 80-120 likes. O eleitor deixa claro: quer ver obra, não palanque.
O que o público devolve nos comentários também é sintomático. As cobranças por rua asfaltada são recorrentes — “e a minha rua?” — e, no recorte analisado, ficam sem resposta pública. O perfil age como diário de canteiro, não como canal de relacionamento político. No framework do Método PODER, esse é o padrão clássico do pilar D — Distribuição: o conteúdo existe e tem qualidade, mas não é distribuído com estratégia de conversão. Não adianta postar obra se o lead que aparece no comentário não é capturado.
A campanha digital que não existe
O dado mais duro da campanha de Freitas está na Biblioteca de Anúncios da Meta. Entre agosto de 2020 e julho de 2026 — seis anos — o gasto total do perfil com anúncios de cunho político foi de ≤ R$ 100. Na semana que antecedeu a convenção estadual do PSB, em 25 de julho, o gasto foi de R$ 0. Zero reais.
Isso não é estratégia de economia. É ausência de estratégia. Com a convenção partidária realizada e o fundo eleitoral liberado, não há mais desculpa para tráfego pago zero. Um pré-candidato a deputado federal que não investe um centavo em anúncio digital a menos de dois meses da eleição está, na prática, abrindo mão de alcance. O que sustenta a campanha dele é 100% orgânico: visita nos municípios, carro de som, inauguração de obra e corpo a corpo. Tudo isso funciona — mas sem reforço digital, o eleitor que não foi alcançado pessoalmente simplesmente não vê Freitas. Numa eleição proporcional com 10 vagas e dezenas de candidatos, invisibilidade digital é sentença de derrota.
Cereja do Bolo
Freitas tem o ativo mais raro da política capixaba: prova de trabalho real. Mais de 250 obras como diretor do DER, 4 mandatos de estadual, capilaridade nos 78 municípios. Isso ninguém tira dele. O problema é que ele embala asfalto como se fosse 2018 — foto + marca d’água + legenda institucional — enquanto o eleitor de 2026 já decidiu voto também pelo Reels, pelo stories, pelo WhatsApp. O “síndico do Norte” virou refém do próprio currículo: entregou tanto que o eleitorado passou a cobrar, não a agradecer. E sem um real investido em anúncio, sem resposta às cobranças e sem funil de conversão, Freitas está fazendo a campanha que um candidato a vereador faria — mas disputando uma vaga na Câmara dos Deputados. A pergunta que fica, a 55 dias da urna, é se o melhor gestor de obra do Estado também vai ser o pior gestor de campanha digital.
MATRIZ SWOT
- 4 mandatos como deputado estadual e nome consolidado no Norte do ES
- Mais de 250 obras como diretor-geral do DER-ES com R$ 1,5 bi em investimentos
- 3.361 posts de prova concreta de trabalho + site de campanha estruturado
- Já foi rejeitado para federal em 2022 e curva eleitoral é descendente
- Engajamento digital estagnado em 1,6% com zero tráfego pago (≤ R$ 100 em 6 anos)
- Sem funil de conversão — bio sem CTA, site sem lead, cobranças sem resposta
- Expansão territorial para o Sul do ES (Cachoeiro com Ferraço/Casagrande)
- Formato “antes/durante/depois” como motor de engajamento já validado
- Fundo eleitoral do PSB pós-convenção como alavanca de tráfego
- Concorrentes com tráfego pago e produção mais ágil tomando share of voice
- Narrativa de “uso da máquina” em ano eleitoral crescendo nos comentários
- PSB sem sobra eleitoral consolidada para quociente federal no ES
O melhor gestor de obra do Estado também vai ser o pior gestor de campanha digital?
Esse é só 1 dos 50 erros mapeados no Método P.O.D.E.R.


