Thamb 04

Corrida ao Palácio Anchieta: o que o estudo das pesquisas de setembro revela sobre a disputa pelo governo do ES

Levantamento consolida três institutos — Quaest, Paraná Pesquisas e Real Time Big Data — na mesma métrica, com duas ondas cada, para ler a evolução da corrida a cinco dias do primeiro turno.

A corrida ao Palácio Anchieta está decidida ou ainda pode virar? A cinco dias de os eleitores capixabas irem às urnas no próximo dia 4 de outubro, essa é a pergunta que domina reuniões de bastidor, gabinetes e rodas de conversa de norte a sul do Espírito Santo. Em momentos de alta voltagem política como a reta final, o ruído das narrativas e a circulação desenfreada de números isolados tendem a gerar mais desinformação do que clareza. Para afastar a névoa, a reportagem realizou uma consolidação sistemática das pesquisas registradas divulgadas ao longo do mês de setembro.

O objetivo desta análise não é escolher vencedor, muito menos endossar a tese de qualquer comitê eleitoral. Tratamos as pesquisas com o rigor que a ciência de dados e o jornalismo exigem: como retratos metodológicos de momentos específicos da opinião pública capixaba. Ao cotejar três dos mais representativos institutos em campo — Quaest, Paraná Pesquisas e Real Time Big Data —, examinando duas ondas sucessivas de cada um, é possível desvendar vetores de tendência, identificar onde as leituras convergem e compreender exatamente em quais pontos elas se contradizem.

A Metodologia: por que a intenção estimulada total é a régua certa

O maior erro cometido em análises eleitorais amadoras é comparar “maçãs com laranjas” — isto é, confrontar dados coletados sob premissas metodológicas desiguais ou métricas estatísticas diferentes. No universo das sondagens políticas, existem três formas consagradas de aferir a intenção de voto do cidadão, e cada uma cumpre uma função bem distinta no ciclo eleitoral.

A primeira delas é a pesquisa espontânea, na qual o entrevistador indaga em quem o eleitor pretende votar sem exibir nenhuma lista. Essa modalidade mede lembrança e consolidação de marca política, mas deixa de fora grande parte do eleitorado que só decide o voto quando colocado diante da cartela de opções na urna.

A segunda é o cálculo de votos válidos, procedimento matemático que exclui do cálculo as respostas de votos em branco, nulos e os eleitores indecisos (“não sabe / não respondeu”). Embora seja esse o critério oficial utilizado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para a apuração oficial no domingo de votação, sua aplicação em pesquisas de reta final inflaciona artificialmente os percentuais de todos os postulantes, mascarando a fatia real do eleitorado capixaba que ainda não tomou uma decisão firme ou que pretende anular.

Por essa razão, este estudo consolidou com exclusividade a intenção de voto estimulada total. Trata-se da métrica em que o eleitor é formalmente apresentado à lista oficial de todos os concorrentes e escolhe um deles, mantendo-se na base amostral a totalidade de votos brancos, nulos e indecisos. É comprovadamente o parâmetro de maior consistência e acerto empírico, permitindo colocar os três institutos sob a exata mesma régua comparativa.

Quadro Comparativo: As Três Métricas de Pesquisa

Cada métrica responde a uma pergunta diferente sobre o eleitor. Entender a diferença é o primeiro passo para ler uma pesquisa com critério.

Métrica O que mede Limitação
Espontânea Quem o eleitor lembra e cita sem ajuda, sem receber a lista de candidatos. Mede memória, não voto. Mais da metade do eleitorado não responde.
Estimulada totalEscolhida Quem o eleitor escolhe vendo a lista completa, com brancos/nulos e “não sei” ainda contando no total. É a leitura mais fiel do momento real — não esconde o indeciso nem infla os números.
Votos válidos Só os votos em candidatos, excluindo brancos, nulos e indecisos. Projeta o resultado da urna, mas infla os percentuais de todos os candidatos.

Por que a estimulada total? Porque é a métrica de maior acerto e credibilidade e permite comparar todos os institutos na mesma régua — evitando “comparar maçãs com laranjas”.

O Estudo: 3 institutos, 2 ondas e a trajetória da disputa

Para traçar um diagnóstico fiel e desprovido de impressões casuais, foram isoladas duas ondas comparáveis de levantamentos de campo aplicados pelos três institutos de maior circulação no Espírito Santo: Quaest, Paraná Pesquisas e Real Time Big Data. A primeira rodada (R1) ocorreu no final de agosto, e a segunda (R2), nos últimos dias de setembro, fechando o intervalo crítico no qual os programas de TV e rádio operaram sobre o eleitorado.

Os três candidatos que lideram o pleito com viabilidade eleitoral são o ex-governador e atual vice-governador Ricardo Ferraço, o prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini e o prefeito de Cariacica Euclério Helder (conhecido pelo eleitorado nas sondagens como Helder). Veja abaixo a matriz comparativa completa:

Evolução Comparada: Estimulada Total nas Duas Ondas (Ago/Set 2026)

Os três institutos na mesma régua (intenção estimulada total), cada um com duas ondas. A variação mostra a direção de cada candidato dentro de cada instituto.

Instituto Ferraço Pazolini Helder
Quaest23–26/08 → 21–24/09 35 → 33 −2 28 → 31 +3 10 → 12 +2
Paraná Pesquisas22–26/08 → 18–22/09 38,2 → 38,3 +0,1 39 → 40 +1 7,5 → 9 +1,5
Real Time Big Data22–26/08 → 21–24/09 42 → 44 +2 33 → 35 +2 11 → 15 +4

Leitura: Pazolini e Helder subiram nos três institutos. Ferraço é onde os institutos divergem — caiu na Quaest (−2), ficou estável na Paraná (+0,1) e subiu na Real Time (+2). Valores em pontos percentuais, intenção estimulada total.

Movimento das Curvas: Onda 1 (Agosto) vs. Onda 2 (Setembro)

A barra clara é a Onda 1 (agosto); a barra cheia é a Onda 2 (setembro). O comprimento mostra a direção de cada candidato dentro do mesmo instituto, na mesma métrica (estimulada total).

Ferraço Pazolini Helder ■ clara = Ago  |  ■ cheia = Set

Quaest

Campo: 23–26/08 → 21–24/09  ·  Margem: ±3,0 p.p.

Ferraço
35Ago
33Set
Pazolini
28Ago
31Set
Helder
10Ago
12Set

Paraná Pesquisas

Campo: 22–26/08 → 18–22/09  ·  Margem: ±2,8 p.p.

Ferraço
38,2Ago
38,3Set
Pazolini
39Ago
40Set
Helder
7,5Ago
9Set

Real Time Big Data

Campo: 22–26/08 → 21–24/09  ·  Margem: ±2,0 p.p.

Ferraço
42Ago
44Set
Pazolini
33Ago
35Set
Helder
11Ago
15Set

Leitura visual: Pazolini e Helder crescem nas três curvas. Ferraço cai na Quaest, estabiliza na Paraná e sobe na Real Time — o comportamento divergente que o estudo destaca. Barras proporcionais ao valor; a escala é a mesma dentro de cada instituto.

A Leitura dos Dados: o que o confronto das pesquisas revela

Quando submetemos as três pesquisas à leitura cruzada, emergem padrões estatísticos nítidos que desmistificam interpretações precipitadas. A constatação mais contundente do estudo é que existe consenso absoluto entre os três institutos a respeito da trajetória de dois nomes: Lorenzo Pazolini e Helder.

Nos três relatórios, Pazolini cresceu entre o final de agosto e o final de setembro: subiu 3 pontos na Quaest (de 28% para 31%), oscilou 1 ponto para cima no Paraná Pesquisas (de 39,0% para 40,0%) e avançou 2 pontos no Real Time Big Data (de 33% para 35%). O mesmo fenômeno de expansão unânime é observado em Helder: +2 p.p. na Quaest (de 10% para 12%), +1,5 p.p. no Paraná (de 7,5% para 9,0%) e expressivos +4 p.p. no Real Time (de 11% para 15%). O avanço de Helder tem peso qualitativo decisivo, pois ele retém eleitores na Grande Vitória e no interior que poderiam, em tese, consolidar uma vitória de primeiro turno para algum dos dois ponteiros.

O ponto de real divergência entre as empresas de pesquisa reside na figura de Ricardo Ferraço. Aqui os números contam histórias distintas a depender da casa que foi a campo:

Síntese Estratégica: Onde os Institutos Divergem

Três institutos sérios, mesma métrica (estimulada total), duas ondas cada. Eles convergem no essencial e divergem num ponto-chave — é isso que o estudo revela.

Ferraço

O ponto de divergência

Quaest: 35 → 33 (caiu)

Paraná: 38,2 → 38,3 (estável)

Real Time: 42 → 44 (subiu)

Pazolini

Convergência de alta

Quaest: 28 → 31 (+3)

Paraná: 39 → 40 (+1)

Real Time: 33 → 35 (+2)

Helder

Convergência de alta

Quaest: 10 → 12 (+2)

Paraná: 7,5 → 9 (+1,5)

Real Time: 11 → 15 (+4)

A leitura do estudo

Pazolini e Helder subiram nos três institutos — convergência real, não artefato de um método. Ferraço é onde os institutos divergem: cai na Quaest, estabiliza na Paraná e sobe na Real Time. Ou seja: a “estabilidade” do atual governador depende de qual pesquisa você olha. A disputa segue de empate técnico ou vantagem estreita, com os dados apontando para segundo turno.

Valores em pontos percentuais, intenção estimulada total. Comparação dentro de cada instituto (mesma régua); a comparação entre institutos diferentes exige cautela metodológica.

Essa discrepância em relação a Ferraço explica por que leitores e militantes sentem confusão ao abrir os jornais da manhã. Quem lê apenas a Real Time Big Data visualiza um Ferraço isolado na liderança com folga; quem lê a Quaest ou o Paraná Pesquisas vê uma disputa voto a voto, ombro a ombro, sem nenhum favorito evidente para liderar o primeiro turno.

Contudo, para além das particularidades metodológicas de cada instituto, há um dado estrutural no qual todos convergem de maneira inconteste: o Espírito Santo caminha para um segundo turno. Em nenhum dos levantamentos realizados — mesmo na pesquisa do Real Time, onde Ferraço atinge seu teto de 44% na estimulada —, qualquer candidato se aproxima do limiar de 50% dos votos totais necessários para liquidar a disputa no próximo domingo.

O valor de um estudo consolidado como este não é arriscar palpites ou antecipar o resultado de domingo. O real serviço cívico é fornecer uma lente analítica: capacitar o cidadão a reconhecer que pesquisas não servem para “escolher o vencedor da semana”, mas para compreender a dinâmica das forças em jogo, a velocidade de transferência de apoios e a força das candidaturas diante do escrutínio popular.

A Decisão Pertence às Urnas

Vale reiterar a máxima jurídica e científica que rege o processo eleitoral democrático: pesquisas de intenção de voto não são profecias do futuro nem promessas de resultado. Elas constituem rigorosamente fotografias instantâneas do momento em que foram a campo, submetidas a critérios de amostragem probabilística devidamente fiscalizados pela Justiça Eleitoral. No Espírito Santo, com uma fatia relevante de eleitores decidindo suas escolhas no trajeto até a cabine de votação, o veredito final não cabe a relatórios amostrais — pertence exclusivamente à soberania do eleitor perante a urna eletrônica em 4 de outubro.

Fichas Técnicas Oficiais dos Levantamentos Consolidados

Os três institutos na rodada de setembro de 2026, com os dados oficiais registrados na Justiça Eleitoral. Toda a comparação do estudo usa a mesma métrica: intenção estimulada total.

Quaest

Presencial domiciliar · contratada pela TV Gazeta

Registro TSEES-01978/2026
Campo21 a 24/09/2026
Amostra804 entrevistas
Margem±3,0 p.p.
Confiança95%

Paraná Pesquisas

Presencial domiciliar · 50 municípios

Registro TSEES-05719/2026
Campo18 a 22/09/2026
Amostra1.304 entrevistas
Margem±2,8 p.p.
Confiança95%

Real Time Big Data

Entrevistas quantitativas

Registro TSEES-01967/2026*
Campo21 a 24/09/2026
Amostra1.600 entrevistas
Margem±2,0 p.p.
Confiança95%

Nota de verificação: as três pesquisas foram registradas na Justiça Eleitoral (Resolução-TSE nº 23.600/2019) e refletem a intenção de voto na data da coleta. O estudo compara exclusivamente a métrica estimulada total; demais cenários (votos válidos, 2º turno) entram apenas como contexto. *Registro ES-01967/2026 refere-se à rodada de 09/09 da Real Time; o registro da rodada de 25/09 deve ser confirmado na divulgação oficial do instituto.

Pesquisa é retrato do momento, não previsão. A eleição se decide nas urnas.

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