Vereador mais votado da história do município revela bastidores da crise política que dividiu a Câmara e expõe embate com a imprensa local
Em uma entrevista de cerca de 50 minutos ao PodBee Podcast, o vereador Eliomar Zucoloto, mais conhecido como Alemão de Niterói (PP), fez um relato detalhado dos bastidores políticos de Piúma. Eleito com 1.177 votos — aproximadamente 10% do eleitorado do município —, Alemão é o vereador mais votado da história da cidade. Menos de um ano após o início do mandato, ele já protagonizou um abandono de sessão, teve parte do salário cortada, rompeu com a base do prefeito Paulo Cola e trava uma guerra pública com o presidente da Câmara, Eliezer Dias.
O mais votado da história
Logo no início da conversa, Alemão foi questionado sobre o peso de ter recebido 1.177 votos — quase o dobro do segundo colocado. Ele reconheceu que a expressiva votação gerou desconforto entre pares.
“Um vereador eleito com 300 votos tem o mesmo poder do que um vereador eleito com 1.177 votos, mas com uma demanda muito maior. A minha entrada na Câmara gerou ciúmes. Em Piúma, você termina uma eleição e no outro dia já começa outra.”
Apesar do ambiente conturbado, ele fez questão de citar colegas com quem construiu parceria
Abandono de sessão e corte no salário
Um dos momentos mais tensos do mandato ocorreu em junho do ano passado, quando seis vereadores abandonaram a sessão após a rejeição de uma emenda à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). O presidente da Câmara, Eliezer Dias, classificou a atitude como “birra política” e determinou o corte de R$ 2.493,75 do salário de cada um dos parlamentares — equivalente a um quarto do subsídio.
Alemão não apenas confirmou que participou do ato como afirmou que faria tudo novamente.
“Faria tudo de novo. Não só que ele cortasse um quarto do meu salário, mas que ele tirasse todo o meu salário, porque o voto tem que ser respeitado. Naquele momento, ele não respeitou a decisão da maioria, que eram seis vereadores. Eu fui um dos que estimulou os colegas a deixarem a tribuna. Foi um voto de repúdio à conduta do presidente.”
Ele também rebateu a acusação de que teria agido como “criança que perde o jogo e vai embora chorando”, frase atribuída ao presidente da Câmara.
“O sentimento que a gente tem é de desrespeito. Naquele primeiro ano, ele quis impor uma ditadura dentro da Câmara. Infelizmente, ele pagou um preço caro. Hoje conduz um pouco melhor, ouve mais os vereadores.”
Alemão informou que ingressou na Justiça contra o desconto.
Rompimento com o prefeito: “Fui jogado para fora do barco”
Um dos pontos centrais da entrevista foi a explicação sobre a ruptura com o prefeito Paulo Cola. Eleito na base do gestor — que teve 79% dos votos na coligação do PP —, Alemão é hoje oposição ferrenha.
Segundo ele, o estopim foi um pedido feito pelo prefeito após a eleição.
“Ele me pediu para que eu votasse no presidente dele, que na época é o atual presidente, Eliezer Dias. E me fez outro pedido: que não lançássemos uma chapa para candidato a presidente. Eu, muito obediente e fiel ao projeto, falei: ‘Posso sim não ser candidato a presidente, mas votar no seu presidente eu não consigo.'”
A partir da negativa, Alemão afirma que o tratamento mudou radicalmente.
“Passei a não ser mais interessante para a gestão. Muita gente acha que eu saí do barco. Não saí. Eu fui jogado para fora do barco. Eu fui empurrado para fora.”
Ele disse nunca ter ouvido diretamente do prefeito sobre um possível retorno, mas que há interlocutores da gestão que cogitam sua volta. Para ele, porém, o cenário é de impossibilidade.
“Da forma que foi conduzida até agora, acho impossível voltar a ser aliado da gestão.”
Pauta autista: veto e recuo
Pai atípico de uma criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Alemão revelou que um de seus projetos de lei mais importantes — o “Empresa Amiga do Autista” — foi vetado pelo prefeito no primeiro ano. A proposta concede um selo de certificação a empresas que contratarem jovens autistas, com possibilidade de incentivo fiscal.
“Ele me retirou da pauta mesmo sabendo que eu sou pai atípico. Acredito que retirou para que eu não tivesse visibilidade maior.”
O vereador contou que o líder do governo pediu para que ele acompanhasse o veto e aguardasse uma versão melhorada. A promessa não foi cumprida naquele ano. No ano seguinte, ele protocolou o projeto novamente, com discurso enfático, e o prefeito sancionou a lei.
“Meu interesse não é quem ganha o mérito. Meu interesse é que a sociedade ganhe. É triste ver um adolescente de 18 anos com condição de trabalhar, mas sem oportunidade.”
Fibromialgia: a luta pela carteirinha
Outra bandeira do vereador é a carteirinha de identificação para pessoas com fibromialgia — doença que, segundo ele, não tem cura e cujos sintomas são pouco compreendidos pela ciência.
“É tão pequeno o investimento, mas é tão grande o benefício. Uma pessoa em crise pode ser confundida com bêbado na rua. Com a carteirinha, ela tem como se identificar e pedir ajuda.”
Ele explicou que a lei já existe e foi aprovada por unanimidade, mas a gestão municipal não imprime o documento. A carteirinha garante prioridade em filas e atendimento diferenciado em unidades de saúde.
Saúde bucal: a polêmica das 426 próteses
A entrevista também abordou o programa Sorria Piúma, de saúde bucal. A prefeitura divulgou a entrega de 426 próteses dentárias. Alemão, no entanto, exibiu vídeos de pacientes que aguardam há mais de um ano.
“O programa é excelente, mas tem deficiências. Muita gente teve os dentes extraídos e está há um ano esperando a prótese. Já tenho relatos de pessoas com problema no estômago por conta da má alimentação.”
Ele afirmou que foi chamado de mentiroso pela imprensa local, mas que provou cada caso com autorização dos entrevistados. O vereador disse que há “um dono” no executivo que “contrata a mídia para jogar cortina de fumaça”.
“É trabalho do vereador. Se eu não puder apresentar erro e cobrar que seja resolvido, é melhor fechar a Câmara.”
Embate com a imprensa e BO contra jornalista
Alemão travou uma comparação direta entre a imprensa de Piúma e a cobertura da Globo nas eleições presidenciais.
“Acontece em Piúma a mesma coisa. A imprensa tenta limpar a imagem de uns e manchar a de outros. Não tenho eficiência em enfatizar o que acontece de bom, mas também não vou fechar os olhos para o errado.”
Ele também detalhou o boletim de ocorrência registrado contra uma jornalista local. São dois processos. O primeiro, sobre acusações de furar filas em postos de saúde, foi arquivado pela Justiça, que entendeu não ter havido ofensa. O segundo, ainda em andamento, envolve o filho do vereador, de 13 anos.
Segundo Alemão, a jornalista deu uma palestra em uma escola sem autorização da Secretaria de Saúde nem da direção. Ao saber que o filho dele estava na plateia, teria usado o exemplo do processo envolvendo a vereadora Teresa Mesade para se referir à família do parlamentar.
“Meu filho chorou. Baixou a cabeça. Quem me informou não foi ele, com medo da minha reação. Fui até a casa dela e disse: ‘Não mexa mais com os meus filhos. Pelos meus filhos, eu vou até as últimas consequências.’ Ela me chamou para entrar. Graças a Deus não entrei, senão a manchete seria ‘Vereador invade casa de jornalista’.”
Ele registrou BO e afirmou que, em audiência de conciliação, a jornalista não compareceu. Apesar disso, disse não guardar mágoa.
“Não guardo mágoa. Está perdoada. Mas ela tem que responder pelo que fez a uma criança.”
Presidência da Câmara e Planos Futuros
Questionado sobre a divisão na Câmara — atualmente 6 a 5 entre oposição e situação —, Alemão admitiu que o grupo de oposição tem força para eleger o próximo presidente. Ele, porém, negou ambição ao cargo.
“Não tenho vontade de ser presidente. Não tenho mesmo. No nosso grupo, tem colegas que querem, mas são tranquilos. Mais importante que a política é o serviço público funcionando com qualidade.”
Sobre 2028, ele não escondeu o sonho de concorrer à prefeitura de Piúma.
“Tenho sonho de ser prefeito. Mas com o pé no chão. Sei que Paulo hoje é uma potência. O futuro quem vai dizer é o povo.”
Apoios políticos
Alemão declarou apoio ao pré-candidato a deputado estadual Alexandre Quintino — a quem atribuiu a destinação de uma escavadeira hidráulica para Piúma ainda quando deputado — e ao deputado federal Messias Donato (PRD), que destinou emenda de R$ 1,2 milhão ao município.
“A gente precisa ajudar quem ajuda o nosso povo.”
Entrevista completa disponível no YouTube do PodBee Podcast.




