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Entre a fé e a lei: por que tantas mulheres ainda seguem sem proteção?

No Espírito Santo, o nome Penha une devoção, identidade e proteção. Mas o contraste entre Nossa Senhora da Penha e a Lei Maria da Penha expõe uma pergunta incômoda: por que, mesmo com símbolos tão fortes e instrumentos legais tão importantes, tantas mulheres ainda vivem sob risco?

No Espírito Santo, o nome Penha carrega muito mais do que tradição. Ele atravessa a fé, a cultura e a identidade de um povo. Está no nome da padroeira dos capixabas, na devoção de milhares de fiéis e também no nome de muitas mulheres espalhadas pelo estado.

Mas “Penha” também remete a outro símbolo de proteção: a Lei Maria da Penha, um dos principais instrumentos legais de enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil.

É justamente nesse encontro de significados que nasce uma reflexão necessária. De um lado, a fé que acolhe. Do outro, a lei que deveria proteger. As duas evocam amparo. Mas apenas uma tem a obrigação de funcionar na vida real.

O contraste que o Espírito Santo revela

No Espírito Santo, essa dualidade se torna ainda mais evidente.

De um lado, multidões sobem ao Convento da Penha em busca de proteção espiritual, consolo e esperança. Do outro, dados, relatos e a própria realidade cotidiana mostram que a violência contra a mulher ainda é uma presença dolorosa em muitas famílias.

É um contraste silencioso, mas profundo.

Enquanto a fé oferece conforto, a lei carrega a responsabilidade de garantir segurança concreta. E é justamente nesse ponto que surge a pergunta que não pode ser ignorada: por que, mesmo com instrumentos legais avançados, tantas mulheres ainda seguem expostas à violência?

Nossa Senhora da Penha e a ideia de amparo

Nossa Senhora da Penha representa, para milhares de capixabas, abrigo, acolhimento e proteção. Sua imagem está ligada à confiança, à esperança e à busca por refúgio nos momentos de dor.

Ao longo do tempo, o nome “Penha” se tornou símbolo de cuidado. Não apenas no campo religioso, mas também no imaginário afetivo de um estado que aprendeu a associá-lo à proteção feminina.

Essa força simbólica é real. Ela move romarias, sustenta famílias e atravessa gerações.

Mas ela também impõe uma responsabilidade: a de transformar aquilo que é reverenciado no plano espiritual em coerência no plano social.

A Lei Maria da Penha e a proteção que precisa acontecer

A Lei Maria da Penha nasceu de uma dor real. De uma mulher real. De uma violência brutal. E da demora de um sistema em responder, com seriedade, àquilo que por muito tempo foi tratado como assunto privado.

A lei foi criada para prevenir, punir e proteger. No papel, representa um marco. Na prática, porém, ainda esbarra em problemas conhecidos: demora, falhas no atendimento, revitimização, deficiência estrutural e dificuldade de garantir proteção efetiva a quem denuncia.

E é exatamente aí que o paralelo entre fé e lei se torna mais forte.

A fé consola. A lei precisa impedir que a violência continue.

A fé acolhe. A lei tem o dever de agir.

A fé pode sustentar emocionalmente uma mulher em sofrimento. A lei precisa garantir que ela não permaneça em risco.

O problema não é a falta de discurso

O Brasil fala em proteção. O Estado fala em proteção. A sociedade fala em proteção. A religião fala em proteção.

O problema não está na falta de discurso.

O problema está na distância entre aquilo que se promete e aquilo que se entrega.

Essa é a contradição que o Espírito Santo ajuda a evidenciar de maneira simbólica e poderosa. Um estado que celebra tão intensamente a ideia de proteção feminina também precisa ser capaz de encarar, com honestidade, o quanto ainda falha em garanti-la na prática.

Não basta reverenciar a mulher no altar, se ela continua desamparada fora dele.

Não basta exaltar o nome Penha como símbolo de cuidado, se esse cuidado não se transforma em resposta institucional, acolhimento qualificado e segurança real.

Fé e lei não competem, mas exigem coerência

Esse debate não coloca fé e justiça em lados opostos.

Ao contrário: ele exige coerência entre ambas.

Uma sociedade que sobe o convento para pedir proteção também deveria cobrar, com a mesma força, que essa proteção exista nas delegacias, nos fóruns, nos serviços públicos e nas políticas voltadas às mulheres.

A fé tem seu lugar. E ele é legítimo.

Mas nenhuma mulher deveria depender apenas da espiritualidade para sobreviver à violência.

A responsabilidade de interromper o ciclo da agressão não é do símbolo. É do sistema.

O que essa comparação realmente revela

O encontro entre Nossa Senhora da Penha e a Lei Maria da Penha revela mais do que uma coincidência de nomes. Ele expõe uma pergunta moral, social e institucional.

Que tipo de proteção estamos realmente oferecendo às mulheres?

Se o nome Penha inspira abrigo, então ele também precisa servir como lembrete de uma obrigação coletiva. A de transformar reverência em responsabilidade. Discurso em ação. Promessa em resultado.

Porque, no fim, o que se espera não é apenas consolo.

É proteção de verdade.

É segurança.

É dignidade.

É justiça.

Redação Podbee Portal de Noticia / Gerson Brandão

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