Se há algo de inegável em nossa sociedade é que a desigualdade salta aos nossos olhos, basta dar uma volta pelas ruas que isto fica mais que perceptível.
Acredito também não haver dúvidas de que a pandemia agravou ainda mais tal realidade, tomando mais nítida tal condição.
Não é novidade também que os processos de relações sociais formaram historicamente este cenário, reforçando sobre vários argumentos superficiais a ideia de que o insucesso de parte da população (os mais pobres), se deu por falta de esforço ou de mérito daqueles que continuam nas camadas menos privilegiadas, pois “as oportunidades estão aí, basta se esforçar”.
Será???
Me deixa triste quando há esta análise de que a desigualdade existente limita-se somente a números e à ordem econômica. Não que a “desigualdade econômica” não exista, mas é preciso ampliar nossa visão sobre esta estrutura desigual e assustadora, afinal ela não pauta-se só na economia, mas também em outros aspectos.
Primeiramente vale à pena saber que a desigualdade pode ser dividida em 3 grupos principais, que são: econômico, social e político. Onde cada um subsidia o outro, reforçando este ciclo que dificulta ainda mais a mobilidade e a ascensão social das classes menos privilegiadas, servindo de reforço estrutural e permanente para este modelo, sem haver uma maior ou menor importância de uma sobre a outra, mas, digamos, havendo um trabalho conjunto.
Quando falamos de “desigualdade econômica”, estamos nos referindo à condição de concentração de renda e riqueza, ou seja, quanto maior a riqueza nas mãos de pouca gente, maior será a “desigualdade econômica”.
A fim de exemplificar, no Brasil, segundo o relatório de riqueza global do banco Crédit Suísse – 2020, o 1% mais rico do país, concentrou 49,6% da riqueza nacional, em 2010 este número era de 40,5%.
Tal cenário certamente terá uma inter-relação com a chamada “desigualdade social”, pois imaginemos uma família onde os pais estão desempregados ou atuam com a economia informal, moram em um bairro periférico, vivendo sob uma condição de insegurança alimentar, com acesso a uma educação deficiente.
Esta criança terá as condições ideais ou adequadas para um aprendizado que oferecerá uma formação educacional que possibilite sua realização profissional e uma provável mudança de condição econômica?
Responda sinceramente!
Para reforçar ainda mais tais realidades, há ainda a “desigualdade política”, que privilegia os grupos de melhor condição econômica e social, pois estes participam, ao ocupar cargos eletivos ou apoiar candidatos eleitos, das decisões políticas, criando leis e aparatos jurídicos que os favoreça, dando uma aparência de legitimidade para a manutenção das condições atuais que os beneficie e mantenha tal estrutura.
Bem, mais do que entender as diferenças entre os tipos de desigualdade, é preciso que fique clara a urgente necessidade de se buscar alternativas que ao menos amenizem este quadro.
Afinal, desigualdade parece não ser só um bicho papão, parece também ser um bicho de sete cabeças.